quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

 África, do ponto de vista dos cultos afro-brasileiros, compreende dois grandes grupos étnicos, isto é, raciais:

  • Sudaneses (centro-norte);
  • Bantus (centro-sul)
"Cultura é um conjunto de costumes, hábitos, crenças religiosas, a moral, a lei, as invenções mecânicas, os objetos ornamentais".
Nina Rodrigues dá a seguinte classificação das culturas africanas:

  • Culturas sudanesas: Iorubás (nagô); Ewês (gêge); Fanti-Ashanti
  • Culturas sudanesas negro-maometanas: Haussás; Tapas; Mandingas; Fulas.
  • Culturas bantus: Angola-Conguense; Moçambique. 
Existem diferenças entre os cultos de origem sudanesa e os de origem bantu. Ainda no grupo sudanês, aproximados de nagô, notam-se os cultos Kêto e de Igexá.
No culto de Gêge, há três derivações principais, o Gêge propriamente dito, o Efan e Mina-Gege. Chegados ao Brasil esses africanos gêges foram denominados "Minas".

No grupo bantu, sobressai o culto de Angola, diferente do candomblé, não somente pela linguagem como pela cadência dos tambores, cerimônias de iniciação sacerdotal e outras práticas do ritual. Outros cultos bantus são também o Congo, o Moçambique, o Guiné, o Benguela, o Cambinda, o Lunda-Quico. Deste último é que parece provir o culto do Omolocô, que tem bandeira e adota uma lei semelhante à de Angola.

O nagô caracteriza duas seitas: o Xangô do Nordeste e o Candomblé de Caboclo.

Os rituais são caracterizados por indumentárias caras, onde são usados muitos materiais em uma iniciação sacerdotal, já bastante dispendiosa em valor monetário.

No Rio de Janeiro predominavam os centros espíritas e com a presença dos "pretos velhos", espíritos evolutivos adiantados em missão de caridade, muitos centros de "mesa" se transformaram em "terreiros".

Exu  Èsù ou Elégbára

Exu é um orixá de múltiplos e contraditórios aspectos, o que torna difícil defini-lo de maneira coerente. É astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente, assim foi que os primeiros missionários, assustados com suas características, compararam-no ao Diabo, dele fazendo o símbolo de tudo que é maldade, perversidade, abjeção, ódio, em oposição à bondade, à pureza, à elevação e ao amor de Deus. 
Entretanto, Exu possui o seu lado bom e, se ele é tratado com consideração, reage favoravelmente, mostrando-se serviçal e prestativo. Se as pessoas se esquecem de lhe oferecer sacrifícios e oferendas, podem esperar todas as catástrofes. 
Exu, talvez, possa ser compreendido como o mais humano dos orixás, nem completamente mau, nem completamente bom. 
Exu é o guardião dos templos, das casas, das cidades e das pessoas. É também ele que serve de intermediário entre os homens e os deuses. Por isso, nada se faz sem ele e sem que oferendas lhe sejam feitas, antes de qualquer outro orixá, para neutralizar suas tendências a provocar mal-entendidos entre os seres humanos e em suas relações com os deuses e, até mesmo, dos deuses entre si. 

O lugar consagrado a Exu é, geralmente ao ar livre ou no interior de uma pequena choupana isolada, ou ainda, atrás da porta da casa.


Saudação: LAROIÊ 

  • Dia consagrado a Exu - segunda-feira
  • Elementos - barro e ferro
  • Contas - vermelhas e pretas 
  • Alimentos - Galo, bode, farofa 
  • Instrumento - Ogò - um tipo de porrete, usa cabaças em sua vestimenta.

Comida em oferenda a Exu
Farofa com pimentas e cebolas
Ferramenta
para assentamento
de Exu

HIERARQUIA SACERDOTAL

No terreiro cada figura tem sua função própria, havendo uma perfeita hierarquia sacerdotal.

      Em Nagô:

  • Babalorixá (homem) - chefe do terreiro
  • Ialorixá (mulher) - chefe do terreiro
  • Iakekerê - mãe pequena (normalmente é a filha mais velha do terreiro, ou a escolhida pelo chefe)
  • Peji-gan - o que toma conta do terreiro
  • Alabê - tocador de tambor
  • Otún-alabê - auxiliar do alabê
  • Axôgún - o que sacrifica animais
  • Otún - auxiliar de Axôgún
  • Ebami - a filha mais velha do terreiro
  • Adagas - filha que despacha os Exus
  • Si-dagan - auxiliar da Adagan
  • Ialaxé - zeladora do Axé das filhas do terreiro
  • Iatabexe - a que canta
  • Iabom - filha de mais de 7 anos
  • Iabonan - filha de santo "feita"
  • Iamorô - a que toma conta das filhas na camarinha
  • Otún-amorô - auxiliar da Iamorô
  • Iabacé - a que está se iniciando
  • Iabian - a que está se iniciando
      Em Angola:

  • Otata - sacerdote chefe do terreiro 
  • Otata ti inkice - o sacerdote que "faz" o santo
  • Mamêto - filha de santo, no gonzemo (santuário)
  • Sarapebé - cambono (o que auxilia servindo)
      No Omolocô

  • Tata - sacerdote-chefe do terreiro
  • Ganga - sacerdote
  • Ginga - sacerdotisa 
  • Macota - ajudante do ganga
  • Macamba - filho do terreiro feito
  • Camba - adepto
  • Cóta - zeladora do santo
  • Ogã colofé - Ogã de confiança
  • Ogã de atabaque - Ogã de tambor
  • Ogã do terreiro - Ogã responsável pelo terreiro
  • Samba - dançarina sagrada
  • Cambone - auxiliar, com os nomes de carbono de ebó e de gira
  • Iabá - cozinheira
Nota: são termos ainda usados e outros não, alguns modificados porque se trata de conhecimento oral que muda de acordo com o tempo e o entendimento das pessoas. 
Referência: Tancredo da Silva Pinto e Byron Tôrres de Freitas.

A Origem da UMBANDA

Importadas de diversas regiões da África e pertencendo a civilizações muito variadas, as diferentes etnias que contribuíram para a formação do Brasil fundiram-se em grande parte na Bahia, onde se defrontaram com uma discriminação racial mínima. Ainda que existam em qualquer parte do Brasil influências religiosas africanas, é na Bahia que estas são mais marcantes e significativas, pois foi onde se deu a maior concentração de escravos, especialmente aqueles provenientes da Nigéria e do antigo Daomé, principalmente na primeira metade do século XIX. 

Já a Umbanda, que vem dos Lundas-Quiôcos, tribo situada ao sul de Angola, foi muito deturpada ao longo do tempo. Em 1972, Tancredo da Silva Pinto, um dos precursores da Umbanda no Brasil, apoiado pela Congregação Espírita Umbandista do Brasil e pelas: União Nacional dos Cultos Afro-Brasileiros, Federação Espírita Umbandista do Estado do Rio de Janeiro, Associação Brasileira de Tradições Populares e Círculo de escritores e jornalista de Umbanda no Brasil; publicou um livro "Umbanda: guia e ritual para organização de terreiros", com Byron Tôrres de Freitas. Na introdução, Tancredo, denominado "Tata"por seu cargo de "chefe" nos terreiros de umbanda, já reclamava da falta de humildade, de pessoas espertas e políticas com interesse puramente promocional, que deturpavam o verdadeiro sentido desta prática religiosa. 
Nesta época, já denunciava que o Sr. Chefe de Polícia de Brasília, informado pelos falsos "entendidos"ameaçou fechar os terreiros de "Macumba" em virtude de coisas absurdas acontecidas e "os embusteiros açodadamente esquentaram a cabeça do Sr. Chefe de Polícia, que imediatamente com a febre do veneno atuando em seu cérebro, tomou esta decisão drástica". 

Desta forma, fizeram publicar um livro a ser um "Código de Ética" denominado "Orione", com a sanção dos Sacerdotes dos Cultos Afro-Brasileiros, com o intuito de desmascarar os "inescrupulosos e aventureiros" que iam contra as práticas da Umbanda. Finaliza a introdução de Tancredo, assinando como Tata Ti Inkice:
"Urge um clamor contra o materialismo ateu e conclamamos todas as religiões para que extirpem do seu seio esse tumor maligno, que causa confusão e traz a semente da inimizade cristã-religiosa". 


Um pouco sobre as Religiões de Matrizes Africanas no Brasil

"Aqui se acha uma das maiores concentrações de descendentes de africanos no Novo Mundo; aqui, além disso, em virtude da tradicional tolerância com que, no Brasil, todas as formas de vida foram e são enxergadas, conservaram-se numerosas instituições e modos de conduta africanos. O contato entre a Bahia e a África Ocidental, por outro lado, foi mais constante e se prolongou até uma data mais recente do que em qualquer outra parte do Novo Mundo" (Herskovits, M., Pesquisas Etnológicas na Bahia, 1967)
Esta introdução se encontra no livro de Júlio Braga, que é um resumo de sua tese apresentada e defendida na Universidade Nacional do Zaire, na África, para obtenção do título de doutor em Antropologia. (Braga, 1988).

Muita coisa mudou nestes 30 anos, entretanto, em se falando de cultura muitos aspectos devem ser considerados, especialmente no ponto de vista dos observadores e dos ambientes, pois nesses são criadas todas as possibilidades de interpretação, significados, abstrações, o que influencia e é influenciado. Toda sociedade é provida de sentido e significação. 

Na Bahia o candomblé é o nome pelo qual se designa as organizações religiosas em que se presta culto às divindades introduzidas pelos africanos durante o período da escravidão. 

"O candomblé é para a Bahia o mesmo que a macumba para o Rio de Janeiro, o xangô para Pernambuco, o vodu para o Haiti ou a santeria  para Cuba. Em seu conjunto, são religiões africanas que se perpetuaram nas Américas. São todas elas consequência imprevista do tráfico de escravos que ia buscar em diferentes pontos da costa africana a mão de obra necessária aos trabalhos das minas e às plantações de cana de açúcar, tabaco e café. Todos têm em comum o fato de serem a evocação e o chamado terreno dos deuses ancestrais, ao som de tambores, durante cerimônias em que sua memória é lembrada e reavivada, e laços que unem deuses e homens são restabelecidos, reafirmados, renovados. Diferem apenas nos detalhes do ritual, que é mais ou menos influenciado pelo Congo e por Angola no Rio de Janeiro, pelo Daomé no Haiti e em São Luiz do Maranhão, e pelos nagô-Iorubás na Bahia, Pernambuco, Cuba e na Ilha de Trinidad." (Verger, 1962).

 África, do ponto de vista dos cultos afro-brasileiros, compreende dois grandes grupos étnicos, isto é, raciais: Sudaneses (centro-norte)...